Da pureza

Gostaria de ser como você

Pequenino e frágil

Por isso sempre abrigado em colo

No afagar de todas as atenções.

Quem sou, mero novo homem

buscando os caprichos do mundo

Teço os semblantes que quero

e os que quero os não tenho.

Gostaria de ser assim

Sorrir sem razão, só pura vontade

Meus impulsos seriam verdadeiros

Singelos de cheios de verdade

Frente tua pureza, sou vazio

Sou um pobre filho do céu, do acaso

Canto a presença dos braços

que tenho de conquistar para o abrigo.

Porém, esses poucos carinhos

nunca serão tão sinceros

como os que te envolvem

e de nós, só eu sei disso.

Você é filho da bondade e da graça

Irmão do amor, aprendiz da vida

Príncipe de um novo reino

Um reino todo azul, que se colore todo dia.

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Da Morena

O que é que tá procurando aí?

Com esses zoinhos murchos e pretinhos

Quer o mundo, com voltas, carinhos

Quer é amor, pra transbordar

Quer é paz, para se estufar

Da morena os olhos pretinhos

Morena risonha, belinha, minha

Baixinha que nem quando menina

Mas é mulher, exclama, reclama

Faz, diz, mais, quis, é capaz

Mas os zoinhos ainda são iguais

E quando de mulher, tens chama

Procura carinho, faz drama, difama

Com os zoinhos pedintes a seguir

Queria me dar, e estavam eles a me procurar

No fundo era só graça, moçada

Era só você a cantar de feliz

Direito não tive de distrair teu olhar

Quando estão molhados, os zoinhos

Eu nem posso olhar

Tão fundinhos, tão murchinhos de apreço

Dá-me a vontade de também chorar

Mas nem posso olhar a lágrima

Eu sou menos, não mereço

Veja bem meu retrato

Homem feito de trapo e trapo

Vejo que sou infeliz, o culpado

Pois faço dos zoinhos um mar

Deveria agradecer

Por receber tanto amar

Então, entre esses versos todos

Só queria dizer com simpleza

que sou pequeno, nem sou alteza

nem tenho a felicidade onde encostar

meu amor vai ajudar

eu hei de consertar tal despesa

No fim, se os zoinhos me procuram

É por que ainda tenho um tentar

De fazê-los alegrar, meu bem

Daí se tudo envolta é feito de mentira

Sorria com os zoinhos

e deixa que o mundo gira sozinho também

 

Marcel Scognamiglio

“Devaneio de mim”

por Marcel Scognamiglio

Veja você aquelas asas que se abrem vigentes sobre as cabeças dos homens.

Homens, mulheres, meninas e meninos com modos diferentes para medir a opacidade dos espelhos ao lado ou medir a cor do azul do céu acima. Veja você quão esplendoroso são os caminhos abertos na mata virgem da independencia dos que deixam para trás as migalhas de pão do óbvio alertadas pelo escrito dos irmãos Grimm.

Veja bem como é maravilhoso o mundo tal qual existe, regido por uma liberdade de expressão nunca vista pelos seus antepassados sofridos. Pode-se até dizer desse alto de sua liberdade que é um prisioneiro dos céus.
Veja você novamente as asas integralmente abertas, realize que elas não protegem todos aqui abaixo dela, perceba quem é vigiado, observe que a paz não existe entre os que lutam para estarem abaixo de cada um de seus lados.

Não somos mesmo todos iguais nem nas diferenças, mas precisamos daquelas comunidades eternas que é o respeito e o conhecimento para viver. Viver e mostrar as cabeças vigiadas o quão é prejudicial a sombra que lhes tapa o sol dos olhos que as asas vigentes lhes trazem…

Esta será a libertação dos homens livres.

A arte é de Rhaíssa Bueno.